Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

Relato Pessoal
26 de novembro de 2010 às 9:50 PM | por Lorena Gonzalez.
A turma do segundo ano foi convidada a ir pra São Paulo participar da gravação do programa Altas Horas. Só tinha um problema: fomos avisados na sexta que a viagem seria na terça e só teria 38 vagas... Rapidamente convenci meus pais a autorizarem. Porém, no final de semana tivemos um encontro do grupo do colégio na chácara e só voltamos para o convívio social no domingo (que era meu aniversario, a propósito). Na segunda foi aquela correria pra conseguir entregar a autorização a tempo. No fim, deu tudo certo. Eu consegui ir pra tal viagem. Na quarta a tarde, quando chegamos à globo, tinha uma menina que também iria no programa com uma blusa igual a minha. E mais uma vez aquela correria pra conseguir voltar no ônibus pra trocar de blusa. Finalmente chegou a hora do programa, eu tava sentada na segunda fileira. Eis que entra o Kayky Brito, hormônios em fúria por toda parte, as meninas gritando como loucas. Altos papos com ele, ali da platéia mesmo. E foi a hora da “pergunta delivery” que fez a viagem toda realmente valer a pena. Eu desci pra fazer a pergunta pro fofo do Kayky, o Serginho perguntou meu nome, eu respondi, O Kayky sorriu e disse “Lorena é o nome da minha irmã na novela.” E então o Serginho simpaticamente diz que eu posso dar um abraço no Kayky. Enfim... Essa sou eu abraçando o Kayky Brito em rede nacional. Morram de inveja.


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Aposto a Felicidade
21 de novembro de 2010 às 10:20 PM | por Lorena Gonzalez.
Já fazia quanto tempo que eles se conheciam? Ela nem lembrava mais, o engraçado é que ainda ficava sem graça perto dele, ainda sofria pra encontrar as palavras certas pra dizer e ficava tudo tão embaralhado que mal conseguia formar frases completas.
-E então? Aceita a aposta? – Ele sorria desafiador. Sabia que ela não resistiria.
-Você ta bêbado, amanhã não vai nem se lembrar disso! – ela apertou a mão dele sorrindo.
-Eu não to bêbado! Quer saber, vou te ligar de manhã pra te mostrar que eu não esqueci. Fala o que você quiser e, amanhã quando eu ligar, eu repito com as mesmas palavras.
-Ta, então quando você ligar eu quero que você diga “Bom dia, flor do dia! O sol hoje brilha tanto quanto seus olhos, ilumina tanto quanto o seu sorriso!” – Ela riu se divertindo.
-Sério? – Ele a olhou incrédulo – É isso mesmo que você quer que eu fale? Você ta falando sério?
-Eu posso falar o que eu quiser, amanhã você não vai lembrar mesmo. – Ela deu de ombros.
-Já que é assim, já que amanhã eu não vou lembrar mesmo... – Ele parou de andar e olhou nos olhos dela – Fala alguma coisa que faça diferença.
Ela perdeu as palavras. Naquele momento, olhando nos olhos dele ali na rua, ela não sabia o que dizer nem o que pensar. Tinha tanta coisa que ela queria falar pra ele, tanta coisa que podia fazer a diferença, mas nunca conseguiria se expor desse jeito.
Ela tentou formular uma frase, mas nada fazia sentido. Se ela pudesse dizer o que queria dizer, diria que ele era o único que a deixava assim, que conseguia mexer com ela desse jeito mesmo depois de tanto tempo, o único que a fazia perder as palavras mesmo quando tinha tudo decorado, o único que a fazia corar com uma simples brincadeira.
-O seu silêncio me faz pensar que você não está tão confiante nessa aposta... – Ele sorriu e voltou a andar. – Tudo bem, eu te ligo amanhã.
Ela respirou fundo se sentindo incrivelmente idiota enquanto o seguia pela rua. Ele queria ter coragem para tomar logo uma atitude, já sabia o que queria, por que era tão difícil de dizer? A sua desculpa era que nunca encontrava o momento para dizer.
Porém ali estavam eles, sozinhos, andando em silencio pela rua iluminada. Eles sabiam muito bem o que queriam, por que era tão difícil?
-Então... A gente conversa amanhã, quando você me ligar. – Ela sorriu – Mas não se anime, eu vou ganhar essa aposta.
-Nos seus sonhos! – Ele sorriu também enquanto a via entrar na portaria do prédio.
Por um momento ele não se mexeu. Ficou ali parado, olhando para a porta fechada. Ele não estava bêbado, no outro dia se lembraria de cada detalhe, inclusive da roupa que ela usava e daquele sorriso.
Ela também levou um tempo para se recuperar. Ao fechar a porta ela encostou suas costas e respirou fundo soltando o ar devagar. Seria possível que fosse tudo impressão dela? Deitada na cama ela repassou tudo mentalmente, essa aposta poderia ser uma ótima oportunidade se ela tivesse coragem de usá-la assim...
Ele segurava o celular, o numero dela selecionado. O que realmente acontecia entre os dois? Era difícil dizer, difícil definir o que acontecia entre eles. Mas talvez, se ele conseguisse transformar tudo em uma brincadeira, talvez desse certo...
-Bom dia, flor do dia! O sol hoje brilha tanto quanto seus olhos, ilumina tanto quanto o seu sorriso! – Ele falou se segurando pra não rir depois dela atender o telefone com a voz sonolenta.
-Eu não acredito que você lembrou, que você ligou... – Ela sentou na cama rindo e esfregando os olhos.
-Eu falei pra você que lembraria. Mas ainda acho que você podia ter dito alguma coisa melhor. – Ele saiu do quarto e foi até a cozinha. Pegou uma garrafinha de água na geladeira.
-Eu não consegui pensar em nada melhor pra falar. E foi engraçado te ouvir falando isso. – Ela se levantou, colocou um moletom e foi para a sala – Mas o que a aposta ta valendo mesmo?
-Acho que a gente esqueceu de pensar nesse detalhe. – Ele deitou no sofá e ligou a TV. – Mas faz assim, escolhe aí o que você quiser...
-Já que você ganhou, escolhe você o que quiser e depois me fala. – Ela sentou na sacada e ficou olhando a rua lá em baixo.
-Tudo bem... Eu posso escolher qualquer coisa? – Ele sabia o que queria.
-Você ganhou. – Ela deu de ombros.
Os dois ficaram em silencio, mas nenhum deles pensou em desligar o telefone. O sol estava nascendo e ela não conseguia pensar em nada a não ser em como seria maravilhoso estar com ele, sabendo que ele queria o mesmo que ela.
Ele olhou para a janela da sala e reparou em uma coisa que nunca tinha reparado antes: dali ele podia ver a sacada dela. Ele riu.
-Do que você ta rindo? – Ela perguntou curiosa.
-Nada, eu tava só imaginando o que pedir pela aposta. – Ele respondeu rápido enquanto procurava um espelho ou qualquer coisa refletora.
-Ah ta... – Ela apoiou os braços na sacada. Podia ouvir muito barulho pelo telefone. – O que você ta fazendo? Decidiu destruir seu apartamento agora?
-Acho que tinha um rato ou alguma coisa assim... – Foi a melhor desculpa que ele conseguiu. Pegou um papel e uma caneta hidrográfica preta. – Tudo bem, eu resolvo isso depois.
Ele foi de novo até a janela. Ela continuava na sacada, olhando o sol, por um momento percebeu uma luz irritante nos olhos. Achou que fosse reflexo do sol em alguma janela.
Ela não estava inteiramente errada, mas demorou pra perceber da onde vinha e quem estava lá. Foi como uma visão, ela olhou para todos os lados antes de voltar a olhar para aquela janela.
-O que você... – Ela sorriu confusa ao vê-lo sorrindo divertido segurando um espelho. Ele desligou o telefone.
Ela segurava o celular apertado na mão enquanto ele mostrava uma folha de papel. Ela não conseguiu deixar de rir com a brincadeira.
Ele ficou um pouco confuso e seu sorriso diminuiu um pouco quando percebeu que ela entrou de novo no apartamento.
No papel ele tinha escrito que já sabia o que queria e por isso não entendeu porque ela tinha entrado. Porém, seu sorriso voltou quando ele viu que ela estava voltando. Ela segurava uma folha onde estava escrito:
-E aí? O que vai ser?
Ele se animou, pegou outro papel e escreveu enquanto ela esperava rindo na sacada.
-Festa amanhã, te pego as oito.
-Nós temos um encontro. – Foi a resposta que ela escreveu sorrindo. – Te vejo lá.
Ela entrou no apartamento e respirou fundo. Ainda não conseguia acreditar que ele tinha ligado. Ele tinha ligado e convidado ela pra uma festa. Isso devia significar alguma coisa.
Estava ansiosa, precisava parar de se sentir assim perto dele, tinha que aprender a parar de tremer toda vez que falava com ele. Ela ia a uma festa com ele, sua vontade era dar pulos de alegria, mas tinha medo de que ele ainda pudesse vê-la.
Ele estava nervoso. Nem lembrava da ultima vez que tinha ficado nervoso antes de sair com uma garota. Falou para si mesmo que estava exagerando, que não precisava disso tudo, afinal eles eram amigos e não tinha nada demais em ir a uma festa com uma amiga. Olhou, mais uma vez, o relógio. Parecia que o tempo não passava e ele não queria chegar à casa dela cedo demais pra não parecer muito ansioso.
Já o relógio dela parecia que corria. Estava quase na hora e ela ainda não tinha conseguido escolher a roupa que usaria. Seu armário estava aberto e todas as suas roupas estavam espalhadas pela cama.
Decidiu que usaria a primeira que ela tinha provado, saia azul de cintura alta e blusa branca. Achou melhor prender o cabelo e antes que pudesse terminar a maquiagem o interfone tocou:
-Eu já to descendo, só cinco minutinhos.
-Aposto que você não chega aqui em baixo em cinco minutos. – Ele respondeu rindo.
-Aposto que eu chego. Pode cronometrar. – Ela desligou e correu para o banheiro.
Terminou a maquiagem, pegou a bolsa e um par de sapatos. Conseguiu pegar o elevador antes que ele descesse. Calçou o sapato e procurou o batom dentro da bolsa.
Quando a porta abriu, ela estava pronta, saiu e andou calmamente até a porta, onde ele esperava olhando o relógio.
-Três minutos e cinqüenta e sete segundos. Você é boa. – Ele parou de olhar o relógio e olhou para ela, por um momento lhe faltou o ar – Você ta linda.
-Obrigada. – Ela corou – Acho que eu mereço alguma coisa por ter ganho a aposta.
-Pra ficar equilibrado, eu vou deixar você escolher o que quiser. – Ele abriu a porta do carro para ela.
-Proposta interessante. – Ela entrou no carro sorrindo.
Eles chegaram à festa e logo ele encontrou vários amigos. Segurando a mão dela ele passava no meio das pessoas.
-Vou pegar alguma coisa pra beber, eu já volto. – Ele soltou a mão dela e foi até o bar.
Ela sentou num sofá e ficou olhando pra ele no bar. Ele conversava com uma loira que já segurava um copo. E se não desse certo? E se ela tivesse entendido tudo errado? Não, agora não era hora pra pensar nisso.
Ele não tinha bebido muito, olhava ela ali se divertindo na pista de dança e só conseguia pensar em como queria essa garota. Morria de ciúmes de todos os caras que a olhavam. Sorriu pra ela enquanto ela vinha em sua direção.
-Eu já sei o que eu quero. – Ela falou rápido, antes que mudasse de idéia ou perdesse a coragem.
-Ah é? E o que vai ser? – Ele deu espaço pra ela sentar ao lado dele no sofá.
-Eu quero um beijo. – Ela não desviou os olhos e nem corou.
-Quão bêbada você ta? – Ele tropeçou nas palavras.
-O suficiente para ter coragem e não me envergonhar. – Ela sorriu ao ver o sorriso torto dele. – Não se preocupe, eu vou me lembrar de tudo amanhã.
Ele segurou o rosto dela e a beijou delicadamente. Aquilo era bem melhor do que tudo o que ela tinha imaginado.
-E aí? Valeu a pena? – Ele sorria.
-Com certeza. – Ela sorria.
Essa noite a volta para casa foi diferente. A conversa fluía leve, era até fácil. Os dois sentiam que era quase natural ficar juntos. Agora que não tinham que esconder nada as palavras saíam sem nem precisar pensar.
Ela entrou no elevador e dançou de alegria como se ouvisse música e não parou de dançar mesmo quando já estava em seu apartamento.
Mal sabia que ele também dançava. Dentro do carro, o rádio ligado no máximo, ele cantava sem se importar com nada.
E quem passava por eles, na rua ou no corredor, sorria, porque era impossível passar por essa demonstração tão sincera e espontânea de alegria sem se sentir parte disso.

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I just want you to know who I am
19 de novembro de 2010 às 3:17 PM | por Lorena Gonzalez.
Eu sou morena e sempre quis ter olhos azuis, tenho um certo medo de altura, não sou supersticiosa, mas não passo por baixo de escada. Sou de escorpião, não sigo horóscopo, mas leio quando tenho uma oportunidade. Adoro ler, desde Capitão Cueca até Felicidade Clandestina. Não sou eclética, mas ouço vários estilos de música. Não gosto quando todo mundo começa a ouvir uma música que eu gosto e já ouvia muito antes. Adoro chocolate e bolo de cenoura. Adoro pipoca de cinema. Eu mesma pinto minhas unhas e adoro esmaltes coloridos. Assisto enlatados americanos e fico triste quando as séries acabam. Tenho todos os livros do Harry Potter, adoro os filmes do Senhor dos Anéis e sou apaixonada pelo Légolas. Não gosto de matemática, já gostei um dia, não aprendo física, mas sempre adorei português. Danço Flamenco e moderno, já fiz GRD, dança folclórica e teatro, mas nunca quis fazer balé. Odeio açaí, sou fresca pra comer. Odeio caldo de cana. Quando era criança assistia Teletubbies e Caverna do Dragão, fui ao cinema assistir Xuxa e os Duendes, sabia de cor as músicas das Três Espiãs Demais e da Kim Possible e meus livros preferidos eram O Bebê Bruxo e Lili Liberdade. Adoro desenhar, não sei andar de bicicleta na rua, odeio gatos. Nas férias, adoro ir pra praia, gosto do sol e do mar, adoro sorvete, amo viajar de carro, adoro os meus irmãos. Me divirto cuidando de criança, pretendo fazer moda e meu sonho é ir pra Europa. Adoro musicais, meu preferido é Moulin Rouge, eu corro no bosque todo dia. Amo ver filme, adoro dançar, mas tremo antes de subir no palco. Amo tirar fotos, já sonhei em ser cantora, às vezes canto no chuveiro. Já passei noites em claro, não sofro de insônia, já dormi sentada, adoro doce de banana, sou do interior e odeio o meu r puxado. Morei em casa a vida inteira, adoro os desenhos da Disney, decoro músicas e falas de filmes. Odeio café e bala de canela, adorava Sharkboy e Lavagirl e sou apaixonada pelo Taylor. Sempre quis saber surfar e acho futebol americano divertidíssimo. Não sou engraçada, mas às vezes solto umas piadas ótimas. Já brinquei de ser sereia, posso ser a pessoa mais chata do universo, sou impaciente e curiosa. Usei aparelho fixo e até gostava de usar. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever...

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A hora da estrela - Clarice Lispector
18 de novembro de 2010 às 10:29 PM | por Lorena Gonzalez.
"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."

Kurt Halsey

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Além de lembranças e suspiros
17 de novembro de 2010 às 9:05 PM | por Lorena Gonzalez.
Agora era a hora, eu iria embora, eu conheceria novas pessoas. Eu deixaria tudo isso pra trás, porque nada disso me importava mais. Começaria uma vida completamente nova, em algum lugar completamente novo. Sem passado, com um futuro completamente inesperado pela frente.
Minhas malas estavam prontas e eu tinha deixado de fora tudo relacionado a ele. Não queria lembranças, não precisava delas. De agora em diante eu não tinha mais passado. Dei uma volta por meu apartamento. Estava tudo encaixotado e pronto pra doação. As paredes não tinham mais quadros, meu armário não tinha mais caixas de recordações. Deixei que ele levasse tudo com ele.
Senti meu estomago roncar. Ainda era cedo para ir para o aeroporto. Deixei a passagem e o passaporte em cima da mesa da sala, peguei minhas chaves, minha bolsa e saí. Parei em um café perto de casa, costumava ir muito lá e essa era a minha ultima vez. Pedi o que eu sempre pedia um chocolate quente com marshmallow e um muffin de chocolate. E então eu reparei em um casal em outra mesa. Foi como se o casal de repente se transformasse e ali, sentada na mesa do café, pude assistir aquele dia como um filme.
Nós dois chegamos ao café, ele me abraçava pela cintura. Como sempre, muito cavalheiro, ele puxou a cadeira para que eu sentasse e eu disse rindo:
-Tente adivinhar o que eu estou com vontade de comer hoje!
Nós sempre fazíamos jogos, não importava a situação nem o lugar. Ele me olhou como se tentasse entrar na minha mente.
-Acho que hoje o dia está muito bom para um muffin. Mas está muito quente para um de chocolate. Um muffin de baunilha e para acompanhar... – Ele me olhava sério enquanto eu sorria desafiadora. – Um suco de laranja.
-Muito bem espertinho... Você ta ficando bom nesse jogo... – Eu sorri me divertindo enquanto o garçom, confuso, tentava anotar o pedido. – Mas eu tenho certeza que você vai querer um donut e um chá gelado.
-Ta, você também é boa. Acho que já ta na hora da gente mudar de jogo. – Ele riu daquele jeito que eu adorava.
O casal se levantou e o filme acabou. Eu estava sozinha novamente e o garçom chegou colocando o chocolate e o muffin na minha frente. Não tinha vontade de comer, mas ouvi meu estomago roncar de novo e empurrei tudo pra dentro.
Não queria voltar pra casa para encarar as paredes vazias de objetos e cheias de lembranças. Resolvi caminhar um pouco, o dia estava ensolarado, mas bem frio. Andei sem saber muito bem aonde ia pelas ruas da cidade e acabei parando no parque. Sentei na grama e fiquei olhando algumas crianças que brincavam de bola e mais um filme começou.
-Amor, eu prometo, eu nunca vou te abandonar! - Ele segurava meu rosto com as mãos e tentava me olhar nos olhos, mas eu não conseguia. Eu olhava para o sol de pondo.
-Nunca é tempo de mais. – Eu abaixei os olhos e encarei meus próprios pés. Me afastei dele e virei de costas, encarando o lago. Tudo era tão lindo, precisávamos estar brigando?
-“Nunca” nunca é tempo demais pra quem ama. – Ele falou de trás de mim.
-Eu não quero ouvir mais nada... Por favor, me deixe sozinha... Depois a gente conversa. – Não queria que ele me visse chorar. Me sentia tão inútil quando chorava. Era como se eu dependesse de outra coisa pra me sentir forte,e bem... Eu precisava dele pra me sentir forte, mas era difícil aceitar isso assim e deixar que ele visse.
Eu nem sequer percebi quando ele saiu, mas quando me virei de novo, estava sozinha no parque, com meus olhos marejados de lágrimas. Percebi que mais uma vez estava chorando sozinha no parque. Aquela não tinha sido a nossa primeira briga, e também não foi a ultima.
Caminhei de volta pra casa, estava um pouco longe e ventava bastante, mas não quis pegar um táxi. Enquanto andava, várias cenas passavam pela minha cabeça.
-Eu já pedi pra você me deixar em paz! – Eu gritei andando pra longe do táxi.
-Gi, volta aqui! Eu não vou deixar você sozinha! Vem comigo, vamos pra nossa casa... – Ele segurava a porta do táxi, me olhando suplicante.
-Eu não vou voltar com você! Por que você não me deixa em paz? Eu já cansei de tudo isso! Cansei das nossas brigas! Cansei das suas desculpas! Cansei de você! – Aquelas palavras o acertaram como um soco no estomago, ele teve que se segurar no carro pra não cair. Mas com certeza doeu mais em mim.
-Então... Você
ta cansada de mim? – Ele soltou a porta do táxi e andou até mim.
-Eu to. Eu to cansada de tudo isso. Eu cansei de você se preocupando mais com você do que comigo, eu cansei de ter que dividir você com toda a população mundial! Eu quero alguém que se importe comigo, alguém que não me faça cancelar meus planos pra dar uma de super-herói! Eu não namoro o Batman nem o Homem-Aranha! E tudo bem, eu até aceito que você cancele um cinema, um jantar de vez em quando... Mas sabe há quanto tempo eu planejava essa viagem? Esse era o meu sonho! Mas o meu namorado não vai poder ir... Tudo bem... Sem problema algum, afinal eu to acostumada... Eu to sempre cedendo... Eu to sempre fazendo o que ele pede, afinal, ele é meu namorado...
-Gi... – Ele me olhava cheio de culpa – O que você quer que eu faça? Que eu esqueça o meu trabalho? Que eu deixe toda a cidade solta a sua própria sorte?
-Não! Eu só quero você, Pedro! E isso eu já não tenho há muito tempo. – Me virei e continuei andando sem olhar pra ele. Ele segurou meu braço.
-Isso é seu. – Ele estendia uma caixinha de veludo azul, presa com um laço de fita prata. – Eu te daria essa noite... Não tem porque ficar comigo.
-Eu... Não posso aceitar. – Eu olhei para a caixinha com os olhos cheios de lágrimas.
-Pode aceitar sim. Você deve aceitar. Isso não é meu, é seu, assim como o meu coração. – Eu não me mexi. – Pega! Aceita, depois vende, joga no lixo, qualquer coisa. Mas aceita...
Eu peguei hesitante a caixinha de sua mão e fui embora. Ele ficou esperando, talvez pra ver se eu jogaria a caixinha no lixo, mas eu não joguei. Já tinha decidido o que fazer. Deixaria a caixinha em casa junto com todas as minhas lembranças e iria para onde eu queria. Faria a minha viagem para a Espanha e depois para a França.
E agora entrando em casa me lembro bem da surpresa que eu tive quando vi aquela caixa de bombons em cima da cama, junto com um envelope. Nem li a carta que tinha dentro. Coloquei a caixa de bombom e a caixinha azul dentro do armário e fui dormir.
Hoje já faz uma semana que tudo isso aconteceu. Falta meia hora pro meu vôo. Minhas malas estão prontas, minhas lembranças encaixotadas. Ainda vejo na parede da sala a marca do meu batom que ele usou para escrever uma mensagem pra mim no dia do meu aniversário. Lembrei da caixinha azul e dos bombons.
Não lembrava de ter encaixotado nenhuma das duas coisas. Fui para o meu quarto e encontrei em baixo da cama, dentro de um bauzinho. Lembrei de ter colado lá quando o Pedro veio buscar as coisas dele. Não queria que ele visse que eu tinha guardado. Fazia eu me sentir dependente. E essa era a última coisa que eu queria que ele pensasse que eu era.
Fui para o meu quarto e peguei primeiro a caixa de bombons. Abri o envelope, e na carta estava escrita uma música. Só uma música. A nossa música. Tentei segurar as lágrimas, peguei um bombom e comi. O telefone tocou e eu me assustei. Derrubei a caixa fazendo com que os bombons rolassem pelo chão do meu quarto. Peguei a caixa para recolocar os bombons e aí eu vi uma coisa que eu ainda não tinha visto. Um outro envelope que estava escondido em baixo dos bombons. Abri o envelope e encontrei uma passagem. Minhas mãos começaram a tremer. Espanha, França, Grécia... Estava tudo ali, tudo o que eu queria tudo o que eu sonhava. E ele tinha feito pra mim, por mim.
Eu ainda tinha tempo, quer dizer, se tudo fosse verdade, ele poderia estar lá, esperando por mim! Ele tinha jurado! Jurado que nunca me abandonaria. Segurei forte a passagem em uma mão e a caixinha azul na outra. Peguei minhas coisas e corri atrás de um táxi.
Cheguei ao aeroporto praticamente correndo para não perder o vôo. Olhei para todos os lados, procurei em todos os lugares que eu sabia que ele poderia estar. Mas ele não estava em lugar nenhum.
Achei que eu estava errada, que ele já nem lembrava mais que tinha me dado aquela passagem e nem aquele anel. Provavelmente ele estava trabalhando. Mas aí eu vi um cara moreno, comprando donuts no café do aeroporto, sorri e quando ia falar com ele vi que tinha me enganado. Não era ele, era só um cara normal viajando com sua namorada.
E quando me virei eu o vi. Parado me olhando e sorrindo. Eu praticamente pulei em seu pescoço. Ele sorriu presunçoso, mas muito feliz. Me apertou forte e passou as mãos em meus cabelos.
-Eu disse pra você que nunca te abandonaria. – Ele sussurrou no meu ouvido.
-Eu te amo Pedro! Eu não quero mais te perder! – Eu não deixei que ele me soltasse.
-Você nunca me perdeu, Gi. – Ele me beijou.
-Eu guardei... – Tirei a caixinha azul da minha bolsa, a caixinha que eu nunca tinha aberto.
-Você não abriu? – Ele pareceu um pouco desapontado.
-Não tive coragem... Mas a gente pode fazer direito agora, se você quiser... – Estendi a caixinha para ele, como se eu tivesse voltando a fita.
-Giovana Welling... – Ele pegou a caixinha na mão e se ajoelhou abrindo-a. – Você quer se casar comigo?
-Sim! – Eu respondi antes que ele tivesse tempo de mudar de idéia.
Ele colocou o anel no meu dedo, me pegou no colo e me beijou. Depois ele me girou dando aquele sorriso torto que eu adorava.
-Eu te amo Gi.

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Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

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"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




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