Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

Pequena
5 de janeiro de 2012 às 11:28 PM | por Lorena Gonzalez.
-Eu quero ir pra Flórida. - Ela rolou na cama deitando de bruços, deixou que o lençol escorresse-lhe pelas costas nuas parando na cintura. - Você me leva?
-Te levar pra onde? - Perguntei distraído enquanto escolhia um disco.
-Para a Flórida. Eu quero ir pra lá. - Ela virou a cabeça para me olhar, seus cabelos ruivos caiam de um jeito natural na frente do corpo. - Coloca aquele que eu gosto.
Não conseguia prestar atenção em metade do que ela falava. Na maioria das vezes estava concentrado em alguma outra coisa. Quando me concentrava nela só conseguia perceber cada um dos seus detalhes. O formato perfeitamente simétrico do rosto, a pele jovem e perfeita, branca, os olhos verdes levemente puxados, o nariz fino e reto. E o modo como sempre acordava depois de mim.
-Esse? - Peguei um vinil do Chico e mostrei pra ela.
-Esse mesmo. Gosto daquela música que ele fala que agora era o rei e que ela sumiu no mundo... Como é mesmo? - Ela sentou na cama, o lençol enrolado na cintura. - Fala alguma coisa sobre faz de conta...
Deixei o disco tocando e fui para a cozinha preparar um café. Coloquei a água para ferver e me servi uma dose de whisky. Ela ainda estava sentada na cama, imersa em seus próprios pensamentos. Lembrava-me de apenas uma vez em que acordei e ela já estava acordada, com seus olhos verdes e brilhantes me encarando. Não era a menina mais culta, nem a mais inteligente, era muito interessada em conhecer coisas novas. Ainda não conseguia entender como tinha me metido nessa situação. Lembrava muito bem da primeira vez em que eu a vi.
Linda e ruiva andando despretensiosamente pela livraria. Segurava o livro com um enorme interesse, veio até mim, entregou-me o exemplar e sorriu:
-Só queria dizer que adoro seus livros. Estão com certeza na lista dos mais inspiradores para mim. - Soube desde o começo que ela nunca tinha lido e que, provavelmente, nunca tinha ouvido falar sobre mim até aquela  noite. - Pode dedicar para Carolina.
Também não era o nome dela, como eu viria a descobrir mais tarde. E não tinha 32, como havia dito. De alguma forma eu tinha despertado o interesse daquela garota e não consegui fugir disso. Ela também despertou o meu. Falava demais, mas eu gostava do tom da sua voz. Tomamos um café, outro e mais outro. Depois passamos para uma cerveja, uma taça de vinho, as vezes duas. E então voltamos ao café. Geralmente requentado na madrugada quente do meu apartamento. Saíamos para passear nos dias ensolarados, eu não precisava me preocupar em falar. Ouvia com interesse enquanto ela me contava seus sonhos de menina. Vidrado, não conseguia tirar os olhos dela. Sorria como um bobo enquanto ela falava sobre horóscopo, roupas, livros, perfumes, filmes... Não conversava muito sobre música. Às vezes me perguntava sobre o que estava tocando, chamava o Chico de "aquele cara". Confiava no meu gosto musical e se esforçava para guardar tudo o que eu falava.
Ela estava cantando sem prestar muita atenção no que dizia. Fiquei observando-a da porta da cozinha. Passava os dedos finos pelos longos cabelos ruivos. Sorri, adorava aquele gesto. Passei a mão em meus próprios cabelos cinzas enquanto lembrava a sensação de ter aqueles dedos longos de unhas feitas acariciando-os sem preocupação.
Coloquei três colheres de pó de café, gostava dele forte, mas ela preferia doce. Peguei as duas canecas no escorredor de louças e as coloquei ao lado da garrafa térmica. Voltei a pegar meu copo de whisky e parei de novo à porta. Ela não estava mais na cama, passava os dedos carinhosamente nas teclas da minha velha máquina de escrever...
-Quero que me coloque num desses, um dia...
-Num desses o que? - Sorri sem conseguir desviar os olhos dela.
-Num de seus livros. Quero me coloque num de seus livros. E me chame de Carolina.
Isso fez eu me lembrar do dia em que descobri seu verdadeiro nome. Nós discutimos. Não foi uma briga feia, só uma discussão, diferença de opiniões. Lembro perfeitamente, ela passou o batom (aquele vermelho que deixa seus lábios maiores), vestiu o casaco e saiu. Nessa noite não tranquei a porta.

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Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

Sobre o blog.

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




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