Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

Cartela de Cores
26 de junho de 2012 às 1:32 AM | por Lorena Gonzalez.

-Caio, eu preciso da sua ajuda!
A garota entrou na livraria com uma sacola enorme em uma das mãos e a bolsa absurdamente grande escorregando do outro ombro. Era difícil não notá-la, seus cachos ruivos chamavam atenção suficiente ainda que ela não estivesse carregando o triplo do seu peso em sacolas e derrubando inúmeros livros pelo caminho. Ele devolveu o livro que segurava na estante e se abaixou para recolher os que estavam no chão.
-Com o que exatamente?
-Primeiro, vamos sair daqui! - Ela suspirou enquanto a bolsa escorregava do ombro para o chão.
-O que é tudo isso afinal? - Ele pegou a sacola e os dois saíram da loja.
-Bom, você vai me achar louca, mas não tem problema. Desde que você prometa me ajudar mesmo assim.
Ele respirou fundo. É claro que ajudaria e ela sabia disso. Os dois entraram em um café e se acomodaram em uma das mesinhas na calçada.
-Você já reparou como essa cidade tá cinza? - Ela pegou o cardápio e começou a passar os olhos.
-É inverno, chove todo dia... - Ele deu de ombros examinando-a cuidadosamente.
-Não é só isso. Os prédios são cinzas, os carros são cinzas, as roupas são cinzas...
-Cinza é a cor da modernidade. - Ele fez um olhar de quem entende do assunto.
Ela revirou os olhos, continuou olhando o cardápio. Procurava as palavras certas para dizer o que ia dizer. Já tinha ensaiado milhões de vezes, fazia uma semana que estava se preparando para isso, mas agora tudo parecia muito idiota.
-Eu acho que tá na hora de uma intervenção. - Discretamente, olhou para ele por cima do cardápio.
-O que você quer dizer com isso? - Ele podia ver apenas seus olhos por trás do enorme cardápio. Dois grandes olhos castanhos e curiosos.
Ela respirou fundo e abaixou o cardápio.
-Como você se sentiria se tivesse mais cor no seu dia? - Ela deu um tempo para que ele acompanhasse seu raciocínio - Eu acho que as pessoas sorririam muito mais se a cidade tivesse mais cor.
-E o que você pretende fazer? - Agora ele parecia mais preocupado e ao mesmo tempo curioso.
-Na verdade... É aí que eu preciso da sua ajuda. Eu tenho várias coisas preparadas aqui e isso provavelmente vai levar o dia inteiro.
-Camis, você é louca.
Ela sorriu, os dois levantaram e pegaram as coisas.
-Então, para onde estamos indo?
-Primeiro eu pensei na torre da igreja. Fica bem no meio da cidade e é alta o suficiente pra gente conseguir um bom alcance. - Ela sorria animada.
-E o que exatamente nós vamos fazer lá? - Ele levantou uma das sobrancelhas.
-Eu mostro quando chegarmos lá.
Os dois caminharam sorrindo. Ele ficava feliz por vê-la tão feliz. Não entendia metade do que ela fazia, mas não podia deixar de apoiar. Olhou intrigado para o céu, podia perceber um rastro de sol que parecia iluminar o caminho deles.
-É o seguinte, eu tenho aqui trezentas bexigas coloridas, nós vamos enchê-las e jogá-las daqui de cima. - Ela revirou o conteúdo da bolsa e jogou três pacotes de bexiga no chão da torre.
-Deixa eu ver se eu entendi... Você pretende encher trezentas bexigas coloridas e jogar pela torre da igreja para colorir a cidade? - Ele ergueu uma sobrancelha levemente incrédulo - Você considerou que elas podem estourar antes mesmo de chegar no chão?
-Cala a boca e enche!
Ela atirou um pacote de bexigas nele e escondeu um sorriso que ele fingiu não perceber. Os dois começaram a encher as bexigas espalhando-as pelo chão enquanto terminavam. Aos poucos a sala foi se enchendo de bexigas de todas as cores. Por um tempo que não poderia ser medido, Caio ficou apenas olhando. O sol entrava pela janela iluminando a sala de uma forma que não poderia ser descrita nem pelos melhores artistas. Sorriu de cabeça abaixada ao perceber que a garota tinha razão, seu humor já estava bem melhor, quase não conseguia parar de sorrir.
-Essa foi a última. - Ela parecia incrivelmente satisfeita.
-Então... Agora a gente joga? - Ele terminou de dar o nó na bexiga laranja que estava em sua mão.
Ela fez um sinal afirmativo com a cabeça, se levantou segurando uma bexiga verde limão, olhou para baixo e respirou fundo. Muita gente passava pela torre nesse horário. Por um momento ela se sentiu insegura, olhou para a bexiga em suas mãos e depois para a praça movimentada e teve medo. E então sentiu a mão de Caio em seu ombro e viu seus olhos verdes e cúmplices. Jogou a primeira bexiga.
Logo em seguida ele jogou a que estava em suas mãos. O vento leve cuidadosamente as carregou para mais longe da torre. Uma mulher que andava rapidamente arrastando o filho pela mão e falando ao celular se deparou com a primeira bexiga no chão. E então seu filho parou e tentou desesperadamente conseguir sua atenção, apontava para o céu com sua pequena mãozinha.
Uma chuva de balões coloridos descia pelo céu, iluminadas pelo Sol. Faziam reflexos de todas as cores que dançavam na praça. Não houve quem não parasse para olhar. As crianças corriam no meio das bexigas pegando-as e jogando o mais alto que podiam para então correr e pegá-las de novo. Alguns pararam de boca aberta, esqueceram-se do que tinham que fazer. Aquela mulher deixou a pessoa com quem falava ao telefone falando sozinha e quase derrubou o celular no chão. Seu filho sorria maravilhado.
-Pronto, temos que correr! - Camila pegou a bolsa e a sacola enquanto Caio ainda olhava para baixo.
-Para onde vamos agora? - Ele alcançou a garota e tirou a sacola de sua mão.
-Agora vai dar um pouco mais trabalho... Mais ou menos... Sabe aquele prédio cinza e alto que fica bem no meio daqueles outros prédios?
-Uau, você poderia ser menos específica? - Ela fez cara feia para ele - Calma, to só brincando. Eu sei qual é.
-Nós vamos precisar subir no terraço...
-E como você pretende fazer isso? - Ele tentou não parecer desanimador ou irônico.
-Pela escada de incêndio? - Ela parecia querer dizer "não pense que eu sou louca!" Ele riu.
-Para a sua sorte, isso não será necessário. Acontece que eu fiquei bem amigo do porteiro quando namorei a... - Ele repensou a frase - E ele me deve um favor.
Os dois chegaram ao prédio e Camila esperou paciente enquanto o garoto falava com o porteiro. Estava muito feliz por ele estar ajudando, qualquer outra pessoa no mundo teria dito que ela era louca. Mas Caio estava sempre por perto com aquele mesmo sorriso. Ele a chamou e os dois entraram no elevador.
-Caio? - Uma menina loira de olhos muito azuis entrou no elevador parecendo surpresa e feliz - O que você faz aqui?
-Ah... Oi! - Ele a cumprimentou um pouco atrapalhado - Eu vim... A Camila...
-Eu pedi pra ele me ajudar com umas coisas. - A ruiva terminou a frase por ele.
O silêncio se instalou de forma constrangedora no elevador. Caio olhava para a frente, Camila fingia analisar as unhas das mãos e os sapatos enquanto a outra garota olhava fixamente para o painel eletrônico que indicava os andares. Ao sair do elevador ela deu mais um sorriso constrangido.
-Então... Terraço! - Caio saiu no terraço deixando claro que não queria falar sobre o elevador. - O que faremos aqui?
-Eu consegui essas enormes faixas de tecido que sobraram daquele circo que fizeram na escola e nós vamos pendurá-las entre as janelas do prédio.
-Parece divertido. Mãos a obra?
Camila jogou uma caixa de pregos para Caio que já retirara um martelo da sacola. Os dois começaram a desdobrar faixas coloridas de tecidos espalhando-as pelo chão. Depois de uns dez minutos em silêncio pregando tecidos, Caio começou a cantarolar uma música, desviando de propósito os olhos da garota. Ela sorriu, antes que percebessem os dois já estavam cantando "Mr. Blue Sky".
-Até que foi fácil. - Ele passou a mão no cabelo e tentou secar o suor da nuca.
-Acho que a gente pode fazer uma pausa agora... - Ela terminava de guardar as coisas na sacola. - Acho também que você vai gostar da nossa próxima parada.
-Achei que você tivesse dito que a gente ia fazer uma pausa... - Ele sorriu enquanto pegava sacola.
-Nós vamos! Mas não aqui.
Ela sorriu fingindo mistério enquanto segurava a porta aberta para que ele passasse. Ele passou ainda cantarolando aquela música. Chegaram em uma casa verde, com a porta amarela e cerca cor-de-rosa, tudo em tons pasteis. Uma senhora de cabelos brancos presos num coque e vestido florido estava regando as flores do jardim.
-Vó, olha quem eu trouxe! - A garota abriu o portãozinho sorrindo.
-Oi querida... Caio! Como você tá magrinho... - Ela deixou o regador no chão, tirou o avental azul levemente sujo de terra e abraçou o garoto - Entra, vou te dar um pedaço de bolo! Vem Camila, tá tudo separadinho pra você, mas antes vocês vão fazer um lanchinho! Acabei de tirar o pão do forno.
Os dois entraram e o cheiro de pão quentinho os fez perceber como estavam com fome. A avó de Camila empurrava os dois para a cozinha falando sem parar. Era muito divertido. Se distraíram e quando viram, já era tarde.
-Vó, nós temos que ir! Se não, não vai dar tempo... - Ela levantou. Caio fez o mesmo.
-Ah sim, sim sim. - A senhorinha saiu da cozinha e voltou trazendo uma caixa de isopor - Pronto, tá aqui, deixei lá no freezer pra não derreter. Tá tudo aqui, só dei um pra Dorinha porque ela viu a gente fazer e você sabe como criança é, mas não vai fazer diferença, foi só um...
Ela acompanhou os dois até a porta.
-E você, senhor Caio, vê se aparece mais vezes! Não precisa esperar a Camila te trazer não, pode vir até sozinho, casa de vó tá sempre pronta pra receber vocês!
-Obrigado, Dona Cila, eu venho sim.
-Minha avó gosta mais de você do que de mim... - Camila comentou quando os dois já estavam fora da casa.
-Não é verdade... Ela gosta de mim tanto quanto de você. - Eles riram. - Pra onde estamos indo?
-Para aquela rua cheia de prédios comerciais...
-E o que nós vamos fazer?
-Vamos colocar um pouco de cor no dia dos engravatados. Eles usam sempre os mesmos ternos pretos, camisas azuis marinho, suéteres cinzas...
-E o que é isso que pegamos na casa da sua vó? - Caio apontou para a caixa de isopor que a garota carregava.
-É a melhor parte do dia! - Ela abriu um sorriso enorme, mal conseguia se segurar - Aqui ta bom, tem um cartaz aí nessa sacola, pega pra mim?
Caio desenrolou a cartolina, estava escrito "Picolés Caseiros", deu risada.
-É isso que você e sua avó fizeram?
-Picolés coloridos! Igual quando a gente era criança, lembra? - Ela colocou a caixa de isopor no chão e a abriu tirando alguns picolés coloridos embalados em saquinhos plásticos.
-Era a melhor parte das suas festas de aniversário. E a gente vai distribuir pra quem quiser? - Caio fez a mesma coisa.  
-Exatamente! Trazer de volta a infância dos engravatados. - Ela piscou para ele e começou a oferecer picolés verdes, amarelos, laranjas, vermelhos, rosas, azuis, brancos e roxos para as pessoas que passavam.
Levou um certo tempo até que aceitassem o sorvete. A primeira foi uma mulher, no auge dos seus quarenta anos, a saia azul envelope cobrindo os joelhos e o cabelo louro escuro preso em um rabo de cavalo baixo. Aceitou o picolé rosa escuro com um olhar confuso e nostálgico. Quase instantaneamente começou a sorrir. Alguns engravatados olhavam curiosos, outros sorriam intrigados e, pouco a pouco, todos foram aceitando os picolés multicoloridos. Antes que pudessem perceber, os dois estavam cercados de empresários, advogados, administradores e economistas, todos conversando e rindo contando histórias sobre a casa da vó e as brincadeiras na rua. 
Quando os picolés acabaram, Camila pegou a sacola vazia e guardou dentro da bolsa. Segurou no braço de Caio e os dois foram andando pela rua.
-O que é esse saquinho que sobrou na sua bolsa?
-São aquelas pedrinhas brancas de jardim... - Ela deu de ombros.
-E pra que você precisa delas? Achei que só ia usar coisas coloridas... - Ele abaixou a cabeça para olhar em seus olhos.
-É que isso já foi feito antes de eu encontrar você.
E então ele reparou nos dois vasos de planta na porta da padaria em frente a casa dela. Todas as pedrinhas brancas tinham sido trocadas por confetes coloridos.
-Acho que o dono pode ficar bravo quando perceber que as pedras dos vasos foram substituídas por chocolates coloridos... - Ele riu enquanto ela se desvencilhava de seu braço e ia dançando até a porta.
-Não se preocupe. As pedras serão devolvidas amanhã. - Ela sorria. - Você vem? 
Ele olhou mais uma vez para os vasos, ela ainda segurava a porta. Entraram na sala a tempo de ouvir a repórter do noticiário local da noite, aquela de cabelo preto bem curto, dar as últimas notícias:
-E hoje os moradores locais tiveram uma pequena e divertida surpresa durante o dia. No começo da tarde, centenas de bexigas lançadas da torre da Catedral deram um brilho especial para a cidade. A segunda manifestação foi vista em um dos prédios mais antigos da cidade.  
-Eu olhei pros lados pra atravessar a rua e quando olhei de novo o prédio tava todo colorido! Coloram umas faixas de tecido caindo desde lá de cima até embaixo, uma de cada cor. - Uma moradora do prédio, uma senhora já de idade, falava com os olhos brilhando.
-Ninguém sabe dizer quem está por trás dessas intervenções. Acredita-se que tenha sido obra de dois adolescentes que foram vistos mais tarde distribuindo picolés coloridos na saída de um prédio comercial.
-Eles estavam aí com uma placa e uma caixa de isopor cheio de picolés iguais os que a minha avó fazia em casa. No começo achei estranho, mas então todo mundo acabou entrando na brincadeira. - Um rapaz de camisa azul e gravata frouxa sorria para a repórter. - Faz bem lembrar da infância.
-Parece que, quem quer que tenha sido, conseguiu deixar o dia de todos mais colorido. Fiquem agora com imagens da praça da Catedral. Boa noite.
Caio olhou para Camila sorrindo, o rosto inteiro da garota parecia iluminado. Ela não conseguia conter o sorriso que tomava conta de todo o seu corpo. Ainda podiam ver na TV imagens de crianças correndo atrás de bexigas coloridas, cachorros pulando entre elas, além de jovens, adultos, e adolescentes que jogavam bexigas verdes, laranjas, amarelas, roxas e azuis para o alto enquanto passavam. Uma luz diferente brilhava na cidade. 

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Rascunho de uma carta não endereçada
24 de junho de 2012 às 2:39 AM | por Lorena Gonzalez.
E quem me vê no ônibus acha que eu sou louca porque assim de repente comecei a sorrir. E não parei mais.Nesse dia cinza e chuvoso, até um pouco frio, nesse dia estranho em que nada de especial aconteceu, decidi inconscientemente que era a hora perfeita para sorrir. Porque hoje recebi uma visita surpresa. A visitante, essa estranha alegria, chegou sem bater na porta e e me inundou do dedão do pé até os fios de cabelo (e olha que não são poucos hein!) E mesmo enquanto nada acontecia de acordo com o plano, mesmo aí eu sorria. Não sei o que deu em mim. Senti-me quente mesmo molhada de chuva. E não era o calor do café que tomava há pouco! Era esse calor estranho e despropositado que só uma grande alegria pode trazer.

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Poderia ser. Mas poderia ser mal interpretada...
18 de junho de 2012 às 7:23 PM | por Lorena Gonzalez.
Me decidir, então ta certo... 
mas eu tenho projetos de filho. 
— Você que ninguém esquece Afinal, quem!


Afinal, quem! — Você que eu apoio! 
super simples hahaha 
um erro E-NOR-ME no meu jeito...


Claro que eu te desafiando 
Sofrendo por dia de limpeza
no show em vez de surpresas.


Aaaaain bem haha só fiz pra lua,
no meu chocolate quente.
vou falar nada
arranjar alguém que ficar.


Você só se o mundo fosse
mais do thatcan.be"
Me decidir, então ta muito boa,
mas você mora em coisa mais


Me apaixonei pelos menininhos
de preferência com sabão líquido especial,
pretas também ficam separadas.


Vou fazer o jogo
poderia ter só vou acabar indo
e apertar um pouco...
e I have read the same things and I.


Te contei que ninguém esquece
Afinal, quem! — e com certeza, é vacinado...


we like the sea 
I'm constantly changing 
from calm to muito pequena








*poema dadaísta gerado pelo "thatcan.be" a partir de trechos dos meus tuítes.

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A insolência do poeta em agonia
4 de junho de 2012 às 3:49 PM | por Lorena Gonzalez.
             Se você percebesse os sinais, os pequenos... É você em todas as palavras. Tudo o que eu escrevo traz seu nome, sua marca, seu sorriso. Se você prestasse um pouquinho de atenção veria que são seus olhos, seu perfume, seus cabelos. É só sobre isso que eu sei falar. Só sei dançar ao som da sua música, só sei cantar no tom da sua voz, só sei pintar com as suas cores,só sei beijar os seus sabores... Quando foi que comecei a rimar? Vê, já não sou mais senhora dos meus atos. Virei poeta! Tomei suas dores e fiz meus os seus amores. E assim fiquei. Rimei sem pensar e continuei rimando. Versando e valsando pelos ares e bares. E você? Tento de todas as formas descobrir o que pensas, mas desisto. Percebo que é melhor só imaginar do que ver sua cabeça tombar por outra. Sou egoísta, quero a luz dos seus olhos brilhando só por mim, pra mim. Caio numa eterna repetição. Trago uma lista quase totalmente renovada de músicas. Vão-se os velhos amores e suas marcas. Fica você. Mas com que propósito? Se não for me segurar em seus braços, me girar, me deixar tonta de alegria... Se não for jurar amor eterno, me levar até a lua... Qual é o propósito? Preferia morrer a ter que ouvir você dizer que não me ama! Só a imagem de seus lábios torcidos "não seja tola"... Mate-me agora, mas não deixe que eu veja essa cena. Não, não fale em morrer! Sinto aquele arrepio sombrio e a dor no peito... Essa dor que não cala, mas também não grita, só chora. Qual é o propósito? Fico presa nessa sala ouvindo os ecos da minha própria voz, reverberando e silenciando. Não quero mais buscar migalhas, eu as escondo embaixo do tapete, cuidadosamente seguindo o clichê, e você vem e balança tudo e antes que eu perceba já estou grudando todas elas nos meus dedos. E como o poeta da noite, guardião dos amores intocáveis, inquebráveis... A canção se cala e a dança se acaba. É o fim da dança. Como viver num mundo onde não existe dança? Não existe você. E assim não existe eu. Se não existe eu, quem é a voz por trás desse sussurro? Esse lamento lamuriado, jogado num canto da sala vazia. A salsa, a valsa, o tango. O silêncio rodando solitário pelo salão e eu ali... Um doce gemido escondido num grito de agonia. O que vem agora? As dores, as pílulas, o sono que não acaba. Sono inquieto esse sem você. No qual o sonho já não brilha e o sol não nasce. Triste. Mas existe uma luz. Sempre existe uma luz. Pequena, esverdeada, aparece por trás das árvores, não cresce, nem morre... Morte, de novo presente, em todo segundo, com o relógio na mão. Marcando o compasso tic tac, o ponteiro rodando como se me mostrasse alguma coisa. A direção. É pra lá que o vento sopra, pra onde a vida não é da carne. E as dores não cabem no peito e viajam livres, soltas, nas costas da águia que sobe bem alto no céu. E ainda assim enxerga lá em baixo no mais fundo dos buracos a minha dor me enterrando viva. Não faz diferença. Virei poeta e o poeta está morto. Morto e enterrado. Por que sempre morte? Não quero falar da morte, mas as palavras me vem e antes que eu veja já me saíram pela boca. Quando chegar ao topo da montanha, quando atingir o alto do céu, guarde o meu lugar ao seu lado que eu estou chegando. Caminho a passos largos para não perder a hora. Hora? Medida de tempo inútil e desfavorável. A cada hora que passa envelheço mais que uma vida. Não cresço, só diminuo. E assim, quando o vento bater, mais fácil vou acompanhar. E no vento reconheço o seu sussurro. O tom sério de quem guarda um segredo. O nosso segredo. Com a voz rouca te pedi para guardar, esconder de mim na mais alta das prateleiras. Junto com bonecas de porcelana e bibelôs empoeirados, lá está o meu segredo. A única coisa que ainda guarda de mim. A prova de que eu existo. Mas como posso alcançar? A prova de que eu existo é nada mais do que meu canto. Esse canto doce e choroso que te pede e te implora: volta! Volta que eu já não posso mais correr. Volta que a areia é fofa e me afunda. Volta que é aqui que a trilha acaba. Volta, só volta.

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Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

Sobre o blog.

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




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