Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

Sobre quando te vi passar
20 de setembro de 2012 às 8:26 PM | por Lorena Gonzalez.
Nós somos extremamente críticos com quem a gente escolhe para ter um relacionamento. Cada vez mais queremos alguém que atenda a todos os nossos padrões e exigências (que estão cada vez mais altos). Como podemos então nos apaixonar tão profunda e perdidamente por alguém com quem nunca conversamos?
A pessoa passa, os olhares se cruzam, a dita cuja nem percebe, mas para nós o mundo inteiro para, gira, balança, retrocede, tudo ao mesmo tempo. E aí é amor. Não tem cura nem volta. Você não sabe o nome, idade, sonhos, vontades, manias nem costumes. Não sabe os gostos, desgostos, a história. Ensaia frases inteligentes, piadas espirituosas pra quando vocês se encontrarem mesmo sabendo que não conseguiria nem abrir a boca perto dele. Com muita sorte você encontra de novo para outra troca de olhares quase inventada de tão despercebida. Com uma sorte colossal (do nível filme adolescente) vocês se trombam e conversam.
Mas se você é só uma pessoa comum, como eu, com quase nenhuma sorte (nem no amor, nem no jogo), não vai passar da troca de olhares distantes (um pouco constrangidos) e os diálogos inventados que só acontecem na sua cabeça. 

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Desenho de Observação
17 de setembro de 2012 às 10:01 PM | por Lorena Gonzalez Leal.

Me mandaram fazer dez desenhos de observação, desde então não posso parar de observar. É como se estivesse desenhando na minha cabeça, observo a incidência da luz e a sombra em baixo dos seus olhos, observo os passos lentos e medidos, observo o contorno do sorriso que insiste em se esconder, observo as linhas de expressão que não poderiam ser retratadas numa simples folha de papel. Linhas que combinam tão bem com o seu rosto e tão pouco comigo. Mesmo assim, as quero pra mim, bem como todo o resto. Quero as linhas, traços, sombras e perspectivas. Quero os contornos e os espaços em branco. Quero o cinza do carvão e as cores da aquarela que se misturam tão bem nos seus olhos. Quero as manchas de giz pastel em minhas mãos, nas minhas roupas, na sua boca. Quero tudo isso sem borracha. Deixe que as linhas se mesclem e se borrem, deixe que os contornos se percam em meio às cores e nos percamos também em meio às telas. Deixe que eu pinte a vermelhidão em seu rosto, que eu prepare o tom dos seus olhos e que eu saboreie o doce dos seus lábios. Façamos da natureza morta a nossa casa, que tudo sirva como cenário para a nossa arte. Apesar do clichê, quero pintar meu corpo no seu, decorar suas cores, que seja moderno, clássico ou renascentista. Já separei meus pinceis e arrumei o ateliê, só falta você chegar. Aí quem sabe eu não te mostro meus dez desenhos... Como eu disse, tenho observado muita coisa, talvez você reconheça alguns dos traços.  

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Mea Culpa
13 de setembro de 2012 às 3:19 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
Não sei bem como fazer isso, nunca fiz com ninguém. Nunca precisei dizer isso, porque sempre esperava que me dissessem primeiro, mas não posso correr o risco de você não dizer. Portanto, vou direto ao ponto. Talvez não tão direto... Ignore meu rosto ficando vermelho, minhas pernas balançando, minhas mãos tremendo, me perdoe por não olhar nos seus olhos. O negocio é que eu gosto de você. É isso, e a culpa é sua. Você permitiu que isso acontecesse. E não importa o quanto você diga que é complicado, não importa o quanto você se esquive, não importa que você nunca sorria pra mim... Eu já gosto de você e nada  vai fazer com que eu mude de ideia. 
Já percebeu como eu sorrio quando estou perto de você? É claro que não, porque eu quase não sorrio quando você passa por mim. Fico estática! Me preocupo tanto em não perder nenhum detalhe, nenhum segundo, fico esperando você olhar pra mim, esqueço de sorrir... Mas quando eu falo com você ou de você, sorrio igual uma boba. Acho que é até melhor que você não veja. O que eu tenho que fazer pra te mostrar que eu sou legal, que eu valho a pena? Eu sei que às vezes falo muito pouco e em outros momentos falo demais, não sei me equilibrar perto de você. 
Só sei que eu gosto e a culpa é sua! Você não só deu espaço pra eu me apaixonar, como quis que isso acontecesse. Precisava ser assim tão legal, gostar das mesmas coisas que eu? Podia ter um dente torto, ser vesgo ou gostar de tecno-brega! Podia ser fascista, skinhead, revolucionário de sofá! Podia não saber conversar... Podia não gostar de cachorros! Isso facilitaria muito as coisas, eu poderia só dizer educadamente que sinto muito, mas estão me chamando no cômodo ao lado. Mas eu não posso dizer isso pra você! Preciso estar sempre disponível para o caso de você precisar de mim, ou sentir a minha falta. Ou eu sentir a sua falta... O que é mais comum e acontece várias vezes. Já disse que a culpa disso tudo é sua? 

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Passarinhando
7 de setembro de 2012 às 7:28 PM | por Lorena Gonzalez Leal.

Ele sorriu e ela automaticamente se enrijeceu. Não conseguiu desviar o olhar, ficou fascinada por aquela expressão tão sincera e momentânea. Corou ao perceber que ainda estava encarando aquele sorriso, mas nem assim deixou de olhar.
Sabia de cor cada traço daquele rosto. Os olhos sérios, a barba escura, os alargadores pretos. Reconhecia o cabelo curto, o braço com suas tatuagens, mas o sorriso era novidade. Tentou apreender o máximo possível naquele curto período de tempo, sabia que não duraria muito, mas era suficiente.
Não parou de olhar quando ele olhou em sua direção, não abaixou a cabeça enquanto o via partir. Também não sorriu. Ficou apenas contemplando aquela cena que não era sua, não fazia parte dela. Não sabia dizer o nome ou o endereço do dono daquele rosto. Não cabia a ela dar conforto ou carinho para aqueles braços.
Ainda assim, era só naquele sorriso que ela conseguia pensar. Inventava nomes, perfumes e gostos. Planejava formas de chamar sua atenção mesmo não tendo coragem de realizá-las. O que importava é que estava sempre ali para vê-lo passar.
E ele passava. Distraído, concentrado, sozinho ou acompanhado e ela continuava ali. Enquanto ele passava, isso era só o que ela notava. Seus passos curtos, rápidos, quase poéticos, suas mãos nos bolsos ou na barba, seus olhos sérios. Não olhava para trás nem uma vez, não sorria. 
Então acabava. Ele passou e ela olhou como sempre acontecia. Ela precisava de um segundo para se recuperar da momentânea seriedade que se instalava durante essa rotina. Por fim sorria, porque não importava se um dia ele chegaria a ser seu, não importava se ela seria a causa daquele sorriso, só importava aquele tempo infinito enquanto ele passava.





*um presente pra xulinha 

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Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

Sobre o blog.

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




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