Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

Sobre as dores do mundo
22 de novembro de 2012 às 5:24 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
         Hoje você sorriu. Fazia tanto tempo que não o via assim, doeu. Foi um sorriso tão lindo, mas como doía. Doeu tanto que não pude olhar muito, desviei o olhar logo que pude. Sei o que pensa sobre a minha dor. Tenta com toda a sua força me manter invisível, mas eu insisto em aparecer. Quero que me veja, mas quero principalmente te ver. Preciso desses vislumbres ainda que me doa. Sou feita de dor, poeta sofrida e incompreendida. Me rasga o peito o mesmo sorriso que te corta o rosto. Tão lindo. Como naquela primeira vez, lembra? As folhas, as cores, o vento. Sou poeta desde então. Escrevo o seu sorriso. Repito as palavras, as sentenças e os predicados nominais. Mudo a forma, mas não mudo o sentido, não mudo você. Ou o sorriso. Hoje doeu uma dor diferente, diferente da que doía ontem, quando ainda tinha você. Doeu como o fim de tudo. Sobrou a sombra das minhas palavras borradas num pedaço de papel, manchadas no saco de pão, riscadas à unha nas paredes. Arranhadas na minha garganta e nas suas costas. Sobrou o sangue que escorre pelos cantos e corre em minhas veias e que é seu, mas a dor é só minha. Era tão lindo. Você sorriu sem perceber o caos, sem tomar conhecimento do fim do mundo bem ao seu lado. E doeu.   

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Cartas secretas para um amigo anônimo VII
14 de novembro de 2012 às 4:27 PM | por Lorena Gonzalez.
o6 de  São Paulo, 06 de junho de 2012

Querido amigo,

Desculpe pelos erros gramaticais, coloquiais ou de caráter. Hoje não estou fazendo bons julgamentos. Me apaixonei. "De novo?" É, eu sei. Mas ele entrou no ônibus e meu coração parou. Não me orgulho em dizer que o encarei. E ele veio e sentou exatamente na minha frente.
Devo dizer que ele tem os cílios mais compridos e bonitos do mundo, algumas sardas perfeitamente no lugar certo e um nariz reto do tamanho exatamente proporcional. Ainda que não seja bem assim, ainda que toda essa perfeita exatidão seja, em parte, projeção da minha mente apaixonada.
Mas eu nunca vi um par de olhos castanhos combinar tão bem com o momento e o ambiente. Até a música que eu ouvia pareceu fazer sentido. E apesar da chuva, eu fiquei feliz. Podia ver alguns raios de sol por entre seus cabelos castanhos.
São esses momentos que fazem o dia valer a pena, não são? Juras de amor eterno através de meios olhares. Relacionamentos sinceros e duradouros com desconhecidos, desses que não passam de dez minutos. Dez minutos de emoções intensas, nos quais partilhamos dores e vitórias, guerras inteiras travadas entre a distância de dois olhares.
Vivi uma história de amor, dessas que não se encontra em livros, que as mocinhas do cinema invejam. Vivi um amor real em toda a sua impossibilidade. Possível em toda a sua irrealidade. E quando eu o vi descer com seu guarda-chuva, eu estava bem, eu sorria.

Carinhosamente,
Sua amiga de longa data.

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Conversa de botas batidas
12 de novembro de 2012 às 12:05 AM | por Lorena Gonzalez Leal.
-Eu fiquei te esperando.
-Ah sim, desculpa por isso.
-Por que você não foi?
-Porque... Eu não sabia se você tava falando sério e aí você saiu...
-Por que eu não estaria falando sério?
-Porque sou eu... Eu nem te conheço! Quer saber, esquece, foi bom falar com você.
-Ei! Por que você ta fugindo de mim?
-Porque eu não saio com desconhecidos, eu não sei socializar, eu não mantenho longas conversas, eu não gosto que riam de mim...
-E quem ta rindo de você?
-Ninguém... Você, minhas amigas, todas as pessoas no metrô. Vamos só deixar isso pra lá, ok?
-Não, deixar o que pra lá? Não tem nada pra ser deixado... Olha, eu acho que você ta criando caso a toa...
-Não fala assim comigo, você nem me conhece...
-Porque você não deixa! Eu quero te conhecer...
-Você não quer me conhecer, só quer um novo nome na sua agenda de telefones, pra quando nenhuma das outras te responder.
-Então é assim que você me vê?
-É assim que você se mostra.
-Só porque eu não quero compromisso, não significa que a gente não possa sair, conversar...
-É fácil pra você dizer, não é você que termina apaixonado. Além do mais, tem a Júlia, ela gosta de você, sabia?
-Eu sei! E eu gosto dela... Mas o que eu posso fazer? Não sei fazer as pessoas não se apaixonarem por mim. Eu aviso que sou assim.
-Vocês seriam o casal perfeito, sabe? Você e a Julia... Imagina só.
-Eu sei disso! E o dia que eu quiser um relacionamento sério com certeza vai ser com ela! Mas por enquanto eu só quero sair, beber, conhecer pessoas... Não quero ter que correr atrás de ninguém, não quero essa história de romancinho... À merda com o romance! Viu, eu consegui te fazer rir.
-Você é um cara legal, eu sei disso. Eu tenho medo, eu sou assim... 
-Medo do que?
-...
-Se eu te chamar de novo, você vai?
-Talvez...
-Eu vou te esperar.
-Eu sei. 



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Lado B
4 de novembro de 2012 às 10:55 PM | por Lorena Gonzalez Leal.

O despertador tocou e ele abriu os olhos ainda atordoado. Precisou de alguns segundos pra focar o ponteiro pequeno marcando seis horas. Esfregou o rosto enquanto levantava devagar, praticamente rolando pra fora da cama. Abriu a janela e olhou a cidade, lenta e calma, o céu num tom de azul celeste misto com rosa e laranja do sol. Coçou a barba por fazer e se arrastou para o banheiro.
Tomou um banho, fez a barba, escovou os dentes, se espreguiçou, passou por todo esse ritual diário. Pegou uma maçã na geladeira, as chaves de casa, uma jaqueta, a pasta e saiu. Olhou no relógio, o ponteiro pequeno entre o 6 e o 7, parou na padaria da esquina pra tomar uma xícara de café e então correu para o ponto de ônibus.
Como sempre, ele era um dos poucos esperando ônibus praquela direção naquele horário. Gostava de sentar no banco alto da janela e ficar olhando o movimento da pista contrária, observava o trânsito parado e os rostos cansados dentro de tantos carros, ônibus ou até mesmo bicicletas. Tudo parecia tão fora do seu mundo desde que ele escolheu o lado B.
A lua já brilhava alta e o céu tinha passado para um tom de azul turquesa. Ele tirou um caderninho de couro da pasta marrom e rabiscou alguns desenhos rápidos com a caneta nanquim, começou a escrever alguma coisa e então seu olhar se perdeu através da janela, viu um ônibus que passava no sentido contrário e dentro dele uma moça de olhos serenos, percebia a sombra de um sorriso ainda em seus lábios que se mexiam suavemente de acordo com a música que ouvia.
Mantinha a caneta na mão e, sem perceber, fez um risco que atravessou a folha. Continuou a olhar mesmo depois do ônibus já estar longe. Guardou de novo o caderninho e pulou para fora do ônibus no ponto em frente ao prédio em que trabalhava. Cumprimentou o segurança da noite e subiu de escada até o terceiro andar. Ligou o computador, tirou um caderno com alguns rabiscos de uma gaveta. Gostava de se dizer artista, mas era só um designer.
 Colocou um álbum do Bob Dylan para tocar, aquele bem lado B, e começou a trabalhar. Era uma dessas pessoas que realmente gostava do seu trabalho, fazia bom proveito da liberdade criativa, desenhava quando tinha vontade, escrevia, conseguiu até terminar aquele projeto de livro que vinha escrevendo desde a faculdade. Dedicava-se realmente ao que fazia. Quando olhou no relógio sobressaltou-se com o ponteiro pequeno no 12. Espreguiçou-se, esticou as pernas, colocou o maço de cigarros no bolso e desceu.
Ao chegar do lado de fora do prédio acendeu um cigarro, deu uma olhada na rua, as mãos no bolso, o cigarro nos lábios. A noite estava bem fresca, o céu (de um azul já bem escuro) estava borrado por algumas nuvens. Andou até uma lanchonete perto da esquina, um dos poucos lugares abertos na região, jogou o cigarro no meio fio antes de entrar, pegou uma coca gelada na geladeira e pediu uma coxinha de frango e um misto quente. Sentou no balcão, conversou com o atendente como sempre fazia, sorriu, assistiu à televisão.
Voltou então para o escritório, foi ao banheiro, tomou um copo de água, assistiu ao vídeo de Dust On The Ground na internet, alguém tinha indicado Bombay Bicycle Club. Escolheu algumas músicas no computador e voltou a trabalhar. Trocava alguns e-mails com o pessoal do trabalho, de vez em quando algumas palavras em voz alta, umas risadas. O escritório era bem tranquilo a essa hora, aproveitava os minutos que a moça da limpeza passava por sua baia para tomar um café e fumar mais um cigarro na varanda.
Tirou o caderninho do bolso e terminou um desenho, escreveu a frase “all is quiet now”. Deu uma olhada na cidade ainda escura e linda. Apagou o cigarro e entrou. Decidiu andar de bicicleta no parque no domingo. Respondeu e-mails de clientes, colocou algumas coisas novas no seu portfólio, salvou alguns blogs e textos interessantes, riu e falou alto sobre vídeos engraçados, compartilhou músicas.
Enfim o ponteiro pequeno atingiu o 6, ainda demorou alguns minutos finalizando os últimos trabalhos pra mandar pros clientes, antes de sair pegou um iogurte na geladeira da cozinha e desceu. Cumprimentou o porteiro da manhã e foi até o ponto de ônibus com o porteiro da noite que terminara seu turno. Seu ônibus demorou a passar, cumprimentou o motorista e a cobradora, sentou, respirou fundo e fechou os olhos por alguns segundos. O ponteiro pequeno já passara do sete.
 Descansou a cabeça na janela e ficou olhando o céu azul tão claro, seus olhos pesavam e teimavam em demorar mais que o necessário para piscar. Percebeu um olhar familiar num ônibus que vinha no outro sentido.  Aqueles mesmos olhos serenos, porém menos cansados, um sorriso esperançoso no rosto e os lábios cantarolando animados. Automaticamente ele também sorriu.
Chegou em casa cansado e satisfeito. Tomou um banho, colocou pijama, preparou um sanduiche natural. Jogou vídeo game até o ponteiro pequeno passar do 10. Resolveu que ainda tinha tempo pra dar uma checada nos e-mails, acabou ficando na internet mais tempo do que planejara. Tomou água, escovou os dentes, deu uma última olhada na cidade tão viva, clara e barulhenta. Anotou no caderninho “domingo no parque” pra não esquecer. Fechou a janela, colocou o celular pra carregar, arrumou o despertador, tirou o relógio e colocou no criado mudo. Seus olhos foram aos poucos perdendo o foco no 11 e no ponteiro pequeno. 

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Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

Sobre o blog.

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




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