Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

Só mais uma quinta-feira
29 de setembro de 2013 às 7:54 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
-É por isso que nós não damos certo, somos muito diferentes.
-Achei que isso fosse algo bom sobre nós dois. – Ele pareceu confuso deitado na cama com sua cueca preta – Essa coisa de opostos e tal...
-Não, é legal isso de opostos, mas é preciso ter algo em comum. – Ela saiu do banheiro com sua calcinha verde de renda e a camiseta branca de banda – Nós não concordamos nem sobre o ponto em que está o nosso relacionamento.
-Achei que concordássemos sobre isso...
-Sobre o ponto em que estamos sim, mas não sobre o ponto em que queríamos estar. – Sentou-se na cama ainda esfregando o creme recém-aplicado nas mãos – Por exemplo, eu estou muito satisfeita, mas você preferia alguma coisa mais oficial.
-Pelo amor de Deus, eu já disse, aquele convite pro almoço da minha família foi uma coisa totalmente casual! É uma festa enorme, tem todo ano e eles vendem convite pra quem não é da família!
-De qualquer forma, não temos nada em comum. – Ela ajeitou os óculos quadrados de aro grosso no rosto – Chegamos ao cúmulo de precisar pedir uma pizza pra cada um por não conseguir escolher um sabor e um tamanho!
-Da próxima vez acho melhor jantarmos antes de nos encontrar. – Ele riu ajeitando o travesseiro e ligando a tv de tela plana.
-A propósito, acho melhor não nos vermos final de semana que vem. Tem essa exposição e eu quero muito ver.
-E eu não posso ir com você? – Rolou na cama apoiando o queixo no travesseiro da garota.
-Você não vai gostar. – Ela abriu o livro que estava no criado-mudo. Dostoievski.
-Tá vendo, você nem me dá chance... Por que você não deixa eu entrar no seu mundo? – Ele olhava para ela com aqueles grandes olhos castanhos.
-Não começa com essa bobagem de novo. – Abaixou o livro e olhou pra ele – Você não vai gostar, eu te conheço, aí vai ficar fazendo piadinha e querendo ir embora.
Ele deitou de frente para a tv e começou a passar os canais. Ficou sério e não olhava mais pra ela. Ela ainda tentou retomar a leitura e então voltou a olhar para ele. Tirou os óculos.
-Vai, não fica bravo comigo... – Ela esperou que ele dissesse alguma coisa, mas ele nem olhou pra ela – Ô Felipe, não faz drama! – Apoiou o cotovelo no colchão e a cabeça na mão.
-Poxa, você sempre me trata igual criança! Só porque eu sou um pouco mais novo que você e ainda to na faculdade... – Ele desligou a tv e olhou para a garota com uma expressão que ela nunca tinha visto.
-Isso não é verdade. – Ela ficou séria, as sobrancelhas franzidas e os olhos castanhos mais escuros.
-Eu nunca me preocupei com as nossas diferenças, nunca tive medo de ser seu oposto porque sempre achei que gostar de você bastasse...
-Ta vendo! Por tudo você tem que vir com drama, faz eu me sentir uma pessoa horrível e insensível! – Ela se sentou irritada – Eu não sou assim, Felipe...
-Não, eu sei que não. Eu te conheço...         
-Nem eu me conheço mais! E é isso que você não entende. Nós não nos conhecemos mais...
-Como não nos conhecemos mais? Eu durmo com você quase toda noite!
-E às vezes parece que é só isso! Às vezes nem isso.
Ele levantou irritado. Saiu do quarto sem dizer uma palavra pegando a camiseta cinza no caminho. Ela suspirou olhando para o teto. Ele encarava o balcão da cozinha. Ficaram assim pelo que parecia ser a eternidade. Colocou o livro e os óculos no criado mudo, vestiu um moletom por cima da camiseta branca e caminhou descalça pelo corredor. Encontrou-o em pé fazendo sanduíches.
-O que aconteceu com a gente?
-Não sei se é TPM, não sei se pra mim já foi, não sei se eu to feliz, não sei se to de saco cheio, não sei se é só fome... – Ela sorriu.
-Ainda bem que eu fiz dois sanduíches. – Ele colocou o prato diante dela. 

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Crítica literária
9 de setembro de 2013 às 4:38 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
Eu odeio os seus poemas. Eles não têm forma ou conteúdo, não têm rimas, não têm ritmo. Não seguem nenhuma escola, não fazem sentido, não têm cor, sabor nem som. O eu-lírico é fraco, o contexto é esquisito, não têm destinatário ou remetente. Não têm data, não têm licença poética, não têm fidelidade histórica. Seus poemas são mal escritos, mal formulados, mal pensados, mal vividos. As rimas são pobres, os versos brancos e a métrica estranha. Não são clássicos, nem modernos. São super-românticos, realistas e dadaístas. Seus poemas não têm tema, não têm força, não têm classe, não têm eu. Eu odeio os seus poemas porque eles me lembram da primeira vez, eles me lembram do começo, eles me lembram de um novo rumo que eu poderia ter tomado. Seus poemas me levam para um mundo onde eu não existo, mas existe você. E aí me dói a vontade de existir, coexistir, insistir com você. Eles me mostram um mar de possibilidades em que eu não estou incluída. Eles me mostram meus medos, meus sonhos, quando deveriam mostrar você. No fim, seus poemas me expõem e te escondem. Não têm nenhum propósito, nem mesmo provocar ou me afastar, são apenas poemas. E, ainda assim, não são bem sucedidos! Eu odeio os seus poemas porque eles não são sobre mim.  

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Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

Sobre o blog.

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




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