Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

Cartas secretas para um amigo anônimo XIII (ou XIV)
11 de janeiro de 2014 às 3:17 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
Maringá, 08 de janeiro de 2013

Querido amigo, 

queria escrever pra ela com a mesma liberdade que escrevo pra você (apesar da formalidade entre eu e você). Queria poder mostrar que ela não ta sozinha e que o que importa no final é quem está do nosso lado e não quem a gente acompanha. Queria saber recitar trechos de "Uivo".
A gente nem tem conversado direito, eu e você, eu nem te perguntei mais sobre a sua moça. Espero que ela não tenha se tornado a razão do seu tormento. Ou tenha, porque mar calmo demais morre. E você é vivo demais pra se deixar morrer.
Já parou pra pensar que envelhecemos e nossos hábitos envelhecem com a gente? Se já somos antiquados agora, imagina então... Cheguei a conclusão de que o que vale são as amizades que não exigem esforço, mas que você não se importa de se esforçar.
Cheguei no rasgo do papel. (você não se importa por eu ter escrito essa carta num guardanapo de papel né?) É que algumas coisas têm que ser escritas na hora pra não perderem o valor. É que eu tava no bar e lembrei de você. E as conversas existencialistas e o livro na minha bolsa...

Enfim, lembrei de você,
Sua amiga de longa data.


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Sobre a última vez
6 de janeiro de 2014 às 1:06 AM | por Lorena Gonzalez Leal.
-Acho que a gente devia conversar enquanto nós dois estamos sendo sinceros. - O rapaz saiu do banheiro ainda fechando o zíper da calça. 
-Enquanto nós dois ainda estamos bêbados. - Ela revirou os olhos vestindo a calcinha preta.
-Nós nunca tivemos uma conversa sincera. - Ele se jogou na cama puxando-a de volta. Olhou para ela em silêncio por alguns segundos, observou aqueles olhos enormes castanhos com tão pouca luz, passou os dedos pela barra da camiseta cinza que ela vestia. - Como você tá se sentindo?
Ela riu. Olhava ainda meio incrédula para o rapaz recostado nos travesseiros, só de calça jeans e um sorriso torto. Endireitou as costas, as pernas cruzadas, as mãos apoiadas no colchão. 
-Eu to bem. 
-Você ficou com alguém na virada do ano? - Aquele sorriso a deixava irritada.
-Não. 
-Não ficou com ninguém depois de mim? - Os olhos, o jeito como ele falava, tudo parecia errado.
-Fiquei com um cara. 
-Quem?
-Você não conhece.
-Como ele chama?
-Marcelo.
-Quando foi?
-Um dia depois de a gente ter terminado.
-Como foi?
-Horrível. Não teve flerte, não teve química, foi só matemática. 
-Eu preciso ser sincero com você... - Levantou um pouco o corpo pra ficar mais perto dela - Eu fiquei com uma menina na virada. Não significou nada.
Ela não respondeu, não sorriu, não pediu detalhes. Apenas murmurou um sinal de qualquer coisa que ela não sabia bem o que significava. 
-Como você se sente? - Ele ainda a olhava, sem se mexer. Ela deu de ombros. 
-O que você sente por mim? - Pela primeira vez ela olhou nos olhos dele. Pela primeira vez (talvez nos últimos seis meses) ela olhou de verdade para ele.
-Eu gosto muito de você, mesmo. E é por isso que eu não quero te machucar mais. Não quero mais te ver assim triste. - Colocou a mão no rosto da garota que repeliu o toque.
-Eu nem sei por que você faz tanta questão de me ver...
-Eu faço questão de te ver porque gosto de você!
-E aí nem fala comigo. Ou fica com cara de bunda querendo ir embora. Depois ainda tem coragem de brigar comigo dizendo que eu sou grossa, que eu não falo com você, que eu só converso com os seus amigos... - Cruzou os braços revirando os olhos irritada. Se ela não estivesse tão seria, ele teria rido.
-Isso não é verdade! - Estranhou a garota, afinal não estava acostumado com sua sinceridade.
-Sabe o que me irrita? Você não me quer por perto porque gosta de mim, você me quer por perto pra massagear seu ego, pra você ter certeza de que ainda tem alguém disposto a ir pra cama com você. - Ela respirava um pouco mais rápido que o normal e seus olhos encheram de lágrimas - E aí você faz essas cenas de ciúmes, eu não posso falar com não sei quem, não posso ter amigos, tenho que te levar pros rolês pra ficar ouvindo você contar sobre como fulana não conseguia parar de te beijar. 
-Uau, por essa eu não esperava. - Ele estava de boca aberta, desajeitado na cama, sem saber em que posição ficar ou o que fazer com o próprio corpo.
-Quer saber mais? Você não tem o direito de ter crises de ciúmes! Eu tenho tanto ciúme quanto você! Eu também não fico nada feliz de ver como você tá próximo das minhas amigas, eu não fico nada feliz de ver como você não para de mandar mensagem sabe-se lá pra quem mesmo quando tá comigo, eu não fico nada feliz imaginando você beijando outras pessoas. Mas eu não falo nada, eu não faço drama, eu não brigo, porque eu sei o meu lugar...
-Eu não tenho crises de ciúmes... E é sério, eu gosto de você, eu gosto de estar com você, eu não quero mais te machucar! Eu sei que todo mundo fica me julgando quando eu fico com você.
-Ah, com certeza... Mas todo mundo me julga também por ser tão idiota! Porque mesmo com tudo isso, mesmo com o jeito que você me trata, eu to aqui, não to? Eu to aqui porque eu sou idiota e, mesmo com tudo isso, só tenho vontade de você.  
As lágrimas caíam pelo seu rosto e ela nem sabia mais se era tristeza ou raiva. Sentia queimar o toque daquela mão na sua pele, o peito doía, a cabeça rodava de tanta sinceridade (ou talvez fosse só a tequila).
-Você é tóxico. E eu sei que eu preciso ficar longe de você, eu sei que o melhor pra mim é te tirar da minha vida, mesmo que só por um tempo, mas eu não consigo... Eu não sei dizer não pra você, eu não sei não tentar te fazer bem... 
Ele a abraçou em silêncio. Ficaram assim por muito tempo. Ela olhava para longe, não aceitava aquele abraço, mas não conseguia sair dele. Todo aquele perfume, todo aquele calor. Aos poucos sentiu as lágrimas parando de cair. Secou o rosto e olhou para ele. Olharam-se por uma eternidade, o encontro daqueles olhos castanhos não poderia ser descrito. E antes que pudessem perceber, antes que tomassem conhecimento de qualquer coisa, se despiram de suas defesas e se entregaram um ao outro, como se fosse a primeira vez.  

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Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

Sobre o blog.

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




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