Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

Diário de viagem
28 de janeiro de 2015 às 1:13 AM | por Lorena Gonzalez Leal.
Tirou as mãos do bolso só para colocar o cigarro na boca. Procurou inutilmente o isqueiro preto que sempre carregava só para desistir frustrado e segurar novamente o cigarro rodando-o entre os dedos. Olhou para a rua, para cima e para baixo, olhou para o chão. Chutou uma pedrinha, impaciente, deu algumas voltas no mesmo lugar. Esqueceu que não tinha isqueiro e colocou novamente o cigarro na boca. Irritou-se com a própria falta de atenção.
Ela vinha descendo a rua, com seus passos tortos, os dedos agitados procurando algo para se ocupar, os olhos fingindo-se distraídos pelo cenário. O celular na mão e o sorriso fugindo do rosto. Querendo diminuir o passo e infinitizar a distância. Uma rosa num braço e uma drag no outro. O cabelo branco raspado na nuca, o batom vermelho borrado no canto, o delineador perfeito. Uma bagunça ambulante com sua regata preta, o sutiã verde, a camisa xadrez amarrada na cintura e o tênis roxo de cano alto.
Segurou o sorriso, virou de costas por um instante e então deu um oi tímido e apressado. Reparou nas marcas em seu pescoço, roxas, vermelhas e amareladas. Ela falava sobre o tempo, sobre a qualidade do metrô e o preço da passagem. Tudo isso entre risadas curtas e olhadas furtivas para o lado. Tinha medo de encontrar os olhos dele e perceber encanto ou admiração. Ou pior, encontrar nos olhos dele o mesmo descaso que via sempre nos seus. Olhos de quem adora o flerte e odeia o lance.
Acabou com o desconforto levando-a para sua zona de conforto. Tomou decisões, já que ela não tomava nenhuma. Decidiu deixar pra lá e curtir a cidade. E continuou andando pela avenida, e continuou fazendo com que ela não parasse de falar porque gostava do som da sua voz. E continuou evitando olhar diretamente para ela. Não queria eternizar nenhum laço. Não queria mais que uma conversa numa noite de domingo. E ela queria um chá gelado.



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Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

Sobre o blog.

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




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