Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

Sexta-feira em RGB
23 de abril de 2015 às 1:58 AM | por Lorena Gonzalez Leal.
          Quando a noite é quente como essa, não precisa de muito para aflorar as cores. Principalmente depois de um dia inteiro trabalhando, sair com a cabeça cheia e o peito vazio, descer a rua inteira com passos apressados e boa companhia, enxergar todas as luzes, dos carros, dos postes, dos bares, dos olhos, tudo isso te faz ver novas cores. Amigos que você não junta sempre, amigos que não se juntam, isso por si só já é uma nova cor. A beleza da Augusta numa sexta-feira à noite é a grade de possibilidades. É uma tela em preto, um quadro negro, e a cada passo dado mais para baixo na rua é uma canetinha hidrocor neon que brilha no escuro que lhe é oferecida permitindo "n" novas formas de colorir sua noite. E cada pessoa no seu caminho é uma paleta de cores e tudo faz parte do processo de criação. Aqueles quarenta minutos de fila englobados pela aura de ansiedade e excitação por tudo o que ainda vai acontecer, as conversas despropositadas e os copos e os cigarros e as balas, é tudo o roxo, o verde, o vermelho, o amarelo, é tudo quente, é tudo eufórico, é tudo enérgico. E a noite começa quando as cores deixam de ser únicas, quando já tá tudo tão misturado que se torna borrões e manchas e nuvens e luzes. Quando a sua luz se encontrou com a minha, quando o meu vermelho se chocou com o seu, surgiu uma cor nova que não tem nem nome nem classificação na tabela Pantone. Uma cor que, naquele momento, me vestiu e te vestiu e nos pintou com uma tinta invisível que me marca na sua pele e te marca na minha sem que ninguém perceba. E por mais que estejamos agora marcados por esse tom que é só nosso, isso não é um contrato nem uma limitação. É uma cor nossa, minha e sua, com a qual podemos pintar o que quisermos em quem quisermos na nossa sexta-feira em RGB.   

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Domingo em preto e branco
7 de abril de 2015 às 11:23 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
          Naquela noite seus olhos estavam de um escuro inexorável e vigiavam os meus sem perder nenhum segundo. Grandes, castanhos, me culpando por perder o dia todo. Analisando cada detalhe do meu rosto, descobrindo qualquer emoção que eu tentasse esconder, apreendendo cada sinal inconsciente que meus olhos mandavam. Gosto de me perder nos seus olhos. E gosto do desenho da sua boca, e da pressão que ela faz na minha pele, no meu corpo, quando me encontra assim de jeito, sem jeito, quando me beija com pressa. Seu rosto assim sério, atemporal, como um clássico do Kerouac, jovem poeta da geração beat nos anos 50, músico punk revolucionário na década de 70, vejo o quarto em preto e branco, vejo você em preto e branco. A pele branca e os olhos pretos. E as olheiras. Característica clássica de nós. Insones. Espero você acender o cigarro, recostado nos travesseiros, como num filme ou numa foto da Rolling Stone, censurado, o peito branco e os braços cobertos de rabiscos pretos, e olhos inexpressivos. E a boca. Talvez a minha parte preferida. Porque quando sorri, seu rosto muda e é tudo trabalho da boca. Quando sorri vira criança, menino, moleque brincando de ser grande, mas quando para volta a ser um personagem de filme francês, nu em preto e branco, coberto por uma névoa de mistério e gozo e grito e berro e medo. Gosto do que vejo e por isso continuo olhando. A expressão de dor quando não consigo me controlar e te mordo. Mordo pra arrancar pedaço porque quero você inteiro. Contraditório, sem nenhum respeito pelas tradições, primeiro o sexo depois o cigarro, eu poderia me acostumar com isso. Me oferece um chocolate enquanto me coloca pra fora. Inexorável, não me diz seu nome. E eu te vejo em preto e branco.  

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Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

Sobre o blog.

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




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