Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

Todo mundo tem
2 de fevereiro de 2016 às 12:34 AM | por Lorena Gonzalez Leal.
Todo mundo tem carências. Pode durar um dia, um mês, um ano ou uma hora. Pode vir em ondas intermitentes ou chegar de manhã pra ir embora só a noite. Pode ser curada com chocolate, filme, remédios, álcool ou um simples travesseiro. Pode ser recorrente, pode ser rara, pode vir com um animal de estimação. Mas todo mundo tem.
Eu nunca fui muito de assumir. Assumir meus medos, desejos, carências e sonhos... Assumir gostar de certas bandas ou pessoas, até mesmo assumir quem eu sou como pessoa. Assumir que eu não sei quem sou. Como poderia assumir meus amores quando eu nem mesmo assumia ser capaz de amar?
Porém eu amo. E negar não me faz deixar de amar. Muito menos faz com que eu não me machuque. Tenho tantas cicatrizes como qualquer outra pessoa. Outra coisa que todo mundo tem. Cicatrizes de todos os tamanhos, todos os formatos, desenhando minhas histórias em mim. Expondo minhas lutas.
Não sei ao certo o que me fez querer deixar de esconder. Algo naqueles olhos me fez assumir. Não que ela tivesse pedido ou perguntado. Mas por um momento a vergonha de esconder foi maior que o constrangimento de ter.
Senti minha garganta fechar, afinal não poderia assumir. Tanta informação assim logo de cara com certeza a assustaria. Corri para casa assustado imaginando a cena. Ela quieta e linda, sozinha com seu livro e um café e eu chego em tempestade "tenho medo, carências, fantasias e vontade de dançar!" Consigo ver seus olhos assustados, o meu rosto queimado em uma vermelhidão pura, suas sobrancelhas erguidas e o suor brotando na minha testa.
Tranquei a porta e fechei as cortinas. Liguei a tv e aumentei o volume. Tentei esconder a minha respiração acelerada e irregular. Então percebi que não adiantava mais negar. Tentei assumir. Minha cabeça latejou. Fiquei preso nesse limbo entre a revelação e o esconderijo.
Tentei entender o que nos faz negar e o que poderia nos fazer revelar. Entendi que existe a insegurança. Não entendi porque nos faz fracos ter ou não ter vontade de dançar. Porque eu tenho! E muita!
Abri a janela e gritei: TENHO MEDO DE SENTIR!
E aí descobri que ela também tinha. Também tinha medo de sentir, tinha culpa dos próprios sentimentos, tinha medo, carência, fantasias e vontade de dançar. Desde então nossa vida é contada no compasso 5, 6, 7 e 8.  

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baião de dois
às 12:09 AM | por Lorena Gonzalez Leal.
Eu nunca fui parte do seu relacionamento. Começou quando você quis começar, do seu jeito, eu não era fator decisivo, era só um componente. Você escolhia os modos, as cores, os lugares, eu ocupava, vestia, atuava. Você segurava minha mão e me empurrava porta à dentro, eu sorria. Você me dava opções e fingia que eu decidia. Eu conheci sua mãe, seus amigos, parentes recém nascidos que já sabiam tudo de mim, a personagem, o relacionamento. Quanto mais o tempo passava, menos indivíduo eu era. Meus gostos viraram domínio público, você sabia de cor o que eu gostava ou desgostava, quando por acaso aparecia algo novo você arregalava os olhos e dizia "você não gosta?" e a partir daquele momento virava verdade absoluta. Se eu comentasse sobre um interesse hoje, ganhava amanhã algo que concretizasse, como se pra marcar a sua eterna percepção pelo meu eu. Meus gostos tornavam-se seus tão rápido eu os indicasse. A concordância e aceitação era fácil e garantida. Faltava a discussão. Fui perdendo então os gostos. Você não perguntava mais, aceitava que sabia, assumia que era aquilo, que eu queria. Seu namoro foi com você mesmo. Corria para por em prática tudo aquilo que acreditava como namoro, como relacionamento, esquecendo que ele envolve duas pessoas. Quando sentia algo errado ficava em silêncio, remoía todos os seus atos pra entender onde tinha errado, e esperava. Esperava para corrigir, consertar ou desviar. Numa dessas você lavou até a louça da minha colega de apartamento. Disse que fez porque não se importava, mas quem se importava era eu. Me oferecia alternativas pra facilitar minha vida, dava sugestões pra melhorar minha rotina, queria resolver meus problemas, aos poucos tirando da minha mão o pouco controle que eu tinha da minha vida. Quem cuida da minha gata sou eu, quem lida com a louça acumulada, as compras do mercado, os problemas da faculdade e o software pirata sou eu. Deveria seu eu. 

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Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

Sobre o blog.

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




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