Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

Verão em Buenos Aires
25 de abril de 2016 às 7:54 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
O ventilador de teto girava preguiçosamente, movimentando a massa de ar quente sem chegar a produzir uma sensação de refrescância naquela tarde de verão. O suor brotava-lhe em gotas na testa, nuca e entre os seios. Afastou os cabelos do pescoço levantando-os alto e respirou fundo de olhos fechados. Tinha o rosto quente. Voltou-se novamente para o material na sua frente, grifou uma frase do livro grosso de páginas amareladas escrito em alemão. Fez anotações em um caderno antes de continuar a tradução no notebook aberto na sua frente. O tec-tec-tec do ventilador misturava-se ao tec-tec-tec do teclado ritmando a tarde quente. Ou talvez nem fosse tarde, talvez fosse manhã.
Talvez já fosse alta madrugada. Era difícil diferenciar dias e noites, todos avermelhados e quentes. Viu uma gota de suor manchar um a no papel e as rugas que logo se formaram distorcendo a frase. Juntou os cabelos na mão prendendo-os numa maçaroca capilar. Levantou-se e dirigiu-se à janela abrindo-a na esperança de receber um beijo de brisa. No entanto, foi tomada por um abraço de ar quente, do qual não conseguia se soltar. O céu inteiro parecia queimar naquela cor indefinida de incêndio, perdido entre dia e noite. Colocou a mão pra fora como que pra pesar o calor, tinha a sensação de que se colocasse o cigarro na boca, ele se acenderia sozinho. Se arrependeu de ter jogado o último maço pela janela na noite anterior.
Procurou nas gavetas, mas só encontrou embalagens vazias. Tomou de um gole o líquido avermelhado do copo que jazia na escrivaninha. O calor agora vinha de dentro pra fora, queimando suas entranhas, suando nos órgãos internos. Abriu a minigeladeira procurando a forma de gelo. Achou apenas alguns pedaços de gelo, restos da noite passada. Engoliu-os como comprimidos, pequenas pílulas de inverno cujo efeito durava apenas alguns segundos. Sentou novamente à escrivaninha, sua cabeça girava e o suor agora escorria como o próprio Rio da Prata em suas costas. As palavras alemãs também suavam no livro amarelo, envelhecidas, quentes. Combinavam perfeitamente estando ela mesma envelhecida e quente. Como uma fruta eixada num armário fechado, absorvendo todo o calor do ambiente, metabolizando incansavelmente, corroída por bactérias decompositoras.
O tec-tec-tec continuava, mas agora embalava os sons da rua, as vozes e os carros que a convidavam pela janela aberta a deixar-se apodrecer maçã nas festas vermelhas do bairro de San Telmo. O alemão perdera toda a sua atenção, queria o castelhano, o português, o francês, o frescor do sotaque anglo-saxão. Respirou o cheiro salgado de suor, típico dos albergues, lugares preferidos da juventude boêmia que se deixava queimar por esse verão incendiário. Correu para o banheiro coletivo de pés descalços, abriu a torneira da pia e deixou a água jorrar em sua cabeça. Ouviu as vozes no corredor, embargadas, afogadas no verão. Voltou para o quarto na ponta dos pés, deixando um rastro de gotas de água no corredor abafado.


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Tchau, querida
18 de abril de 2016 às 5:24 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
         A luta se faz necessária e o medo é grande. Medo de assistir nas ruas o que ouvi nas aulas de história, medo de ver minha voz, tão fracamente reconhecida, calada por completo. Medo das mentes quadradas que passam por cima de qualquer coisa para conseguir o que querem e medo dos cegos ludibriados que não percebem que fazem parte da massa, que são farinha do mesmo saco e que o pão não é pro povo.
        O medo de ir pro forno só não é maior do que o de descobrir que eu já estou lá, vendo o país engordar meia duzia de bocas sentadas em mesa com pratos de outro, comendo o bolo que não para de crescer, fatias grossas de perdedores da guerra, de quem se colocou na linha de frente, de quem tentou alcançar o seu pedaço. 
           E os fogos que não param de estourar atestam a imbecilidade humana, comemorando discursos de ódio, aplaudindo o descaso com os direitos humanos, a violência escancarada amparada por preconceitos destilados das mais variadas formas, a opressão massificada e a morte do debate embasado. O egoísmo toma conta dos argumentos e comportamentos, a empatia é sonho utópico e a esperança nunca pareceu tão parcial.   

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Margarida
13 de abril de 2016 às 11:54 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
           Vai menina, de pés no chão, exploradora do mundo físico, descobridora dos segredos da terra, caçadora dos sonhos que se pode ver. Procura, escavadora ávida que é, conhecer o antes e o agora daquilo que a move. Paleontóloga, classifica seus dinossauros em arquivos construídos com lego, os carrega na mochila e na alma como parte de si mesma. Desenha pegadas em caminhos inabitados, planta sementes de espécies extintas em desertos inférteis. 
         Pesquisadora de mitos, procura evidências que comprovem as teses, armada de uma rede de caçar borboletas, as guarda em potes de vidro com buracos na tampa, seus pequenos vaga-lumes de conhecimento, abajur de dúvidas, luz noturna de perguntas sem resposta. Constrói a sua volta uma muralha de tijolos amarelos até o topo do pé de feijão. Enterra a seus pés tudo o que é seu, serva altruísta à serviço do outro, sem direito de posse. 
           Anjo da guarda, enche o peito de coragem, entende que não se entende o subjetivo, abraça com seus braços de abrigo, esquenta e protege seus tesouros imateriais, álbum de figurinhas incompletas de pessoas que ganharam lugar no seu jardim secreto, parque de dinossauros eternos, peças de cristal delicado expostas em prateleiras, cobertos de cuidados. Antropóloga, se exclui da sociedade que tanto estuda, vê os anos chegarem e saírem como uma chuva de estrelas que acontece uma vez na vida.

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Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

Sobre o blog.

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




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