Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

Homem de lata
13 de junho de 2017 às 10:27 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
A garota era arrastada pela mão enquanto a mãe andava a passos largos pela rua movimentada, mal tinha tempo de olhar pros lados e observar os sapatos das pessoas. Gostava de observar sapatos, cada par com sua história pra contar sobre lugares que ela ainda não conhecia. Não tinha tempo de perguntar seus porques, sabia que sua mãe não tinha paciência pra eles. Foi empurrada para dentro de uma porta esquisita, esperou pacientemente sua mãe soltar sua mão para falar com alguma outra pessoa atrás de um balcão e então começou sua caminhada de reconhecimento.
Era um lugar interessante, as paredes cobertas de prateleiras cheias de livros e bonecas. Foi seguindo com as mãos uma fileira de sapatos de bonecas imaginando todas as histórias que caberiam ali até chegar a uma porta. Olhou pra trás e viu sua mãe absorta numa conversa aparentemente chata e aproveitou para descer os dois degraus que se seguiam à porta. Encontrou um homem de meia idade sentado a uma mesa com uma luminária acesa e uma boneca na mão.
-O que você está fazendo?
-Consertando uma boneca.
Desviou o olhar do homem e começou a passear pela sala. Era repleta de estantes e objetos estranhos. Aproveitou da falta de atenção para olhar tudo sem timidez.
-O que é isso? - Apontou com suas mãozinhas de criança para um pote de vidro grande meio escondido na prateleira do canto - Isso dentro do pote, o que é?
-Meu coração. - Ele respondeu secamente, mas não com a intenção de ser grosso ou encerrar a conversa, era apenas seu modo prático de falar sobre as coisas. Jeito esse que sempre chocava os adultos, mas era sempre muito bem visto por crianças na fase dos "por ques".
A garota franziu as sobrancelhas dando pequenas meia-voltas ao redor do pote, procurava o melhor ângulo para observar o objeto. Apertava os olhos forçando a vista para ultrapassar o reflexo da luz e chegar até o coração.
-Por que seu coração tá num pote?
-Porque ele tava doendo demais no meu peito.
-No pote ele não dói mais?
-No pote eu não sinto.
O par de olhos curiosos perdeu apenas alguns segundos no homem que bebia sua xícara de café amargo sem interromper a pintura  dos olhos da boneca. Voltou então a estudar o conteúdo do pote, a expressão de concentração fazendo seu rosto parecer estranhamente adulto, mas de um jeito que só uma criança pode se concentrar.
-Por que seu coração é tão esquisito?
-Esquisito como? - Pela primeira vez ele olhou para a garota, intrigado, que o encarava.
-Ele não tem forma de coração... - Olhou para o próprio peito vislumbrando o próprio coração - E é tão pequeninho! O meu não é tão pequeno…
-Ah, isso é porque o seu coração está inteiro, o meu é só o que sobrou.
-O que aconteceu com o seu?
-Eu dei pras pessoas.
-Por que? - Sua pergunta foi ao mesmo tempo confusa e impressionada.
-Porque elas precisavam mais que eu.
-E o que elas fizeram com ele?
-Algumas usaram, algumas guardaram e algumas jogaram fora.
-Por que você não pegou de volta?
-Porque não era mais meu.
-Por que ninguém te deu outro?
-Algumas pessoas não tem coração pra dar. Outras têm medo.
-Dar o coração dói?
-Muito.
-É por isso que as pessoas têm medo?
-Também. Mas elas também têm medo de ficar sem.
-Você teve?
-Sim.
-Por isso você guardou o coração num pote?
-Aham.
Mais uma vez ela ficou em silêncio, voltou a olhar o pote, dessa vez com o olhar mais triste e afetuoso que atento ou curioso.
-Eu acho que ele ta doente.
-É provável que sim. - Ele deu de ombros.
-Você acha que ele vai morrer?
Ele não respondeu. E ela não precisava de resposta. Ouviu então os passos dos sapatos vermelhos da sua mãe próximos a porta, sua voz severa chamando seu nome. Olhou novamente para o coração no pote sentindo o peito arder. Olhou para os seus próprios sapatos vermelhos que pareciam concordar com a ideia que se passava em sua cabeça.
Correu na direção do homem, ficou na ponta dos pés para alcançar seu rosto e deu um beijo em seu rosto. Ao voltar para o vento frio da rua novamente sendo arrastada pelos passos rápidos da mãe, sentia-se mais leve, mas não sentia falta daquele pedaço do seu coração.

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Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

Sobre o blog.

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




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